18 agosto, 2010

De hoje em diante


Venha em meio ao desproposito, me venha doce, incansável e feroz.  Venha firme, certo e até um pouco inseguro. Seja humano, verdadeiro e egoísta... Queira-me só pra você. Enfrente os fatos, desconsidere os chatos e me tire pra dançar. Compre brigas, desfaça as malas e fique comigo. Confunda suas pernas, as minhas e todos os sentidos. Divida a casa, a cama e o meio termo. Evite a mesmice, a rotina, o certo, me enfeite com estrelas catadas ao vento, que eu quero mais é ser sua menina.  Daqui pra frente você segura minha mão e eu conquisto seu melhor sorriso. Daqui pra frente quero ter borboletas no estômago todos os dias.
Ana Fenner

12 agosto, 2010

Para Maria da Graça

 " Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.    
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.  
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.   
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg yuor pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostaria de gatos se fosse eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! Mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma de gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nosso domínio disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamamos de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
 Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
"

Paulo Mendes Campos, Para Maria da Graça, 1979.

11 julho, 2010

Florescer


Chove chuva
vem molhar meu quintal
e lavar a alma.
Chove manso no telhado
invade a grama
traz a novidade.
Tromba d água que inunda meu ser
submerge minhas certezas
deixa cheiro de mato molhado por toda casa.
 Vou banhar-me em tuas águas, fazer-me ribeirão.
Vou cantar- te nos ventos
perder-me nas tuas águas
renascer junto às flores do campo.
Chuva é uma oportunidade de brincadeira,
de aconchego no balanço da tarde,
de guardar-me dos redemoinhos de vento.
Chuva é deixar florescer uma esperança tardia
bem no meio da imaginação.
Ana Fenner

26 junho, 2010

Bagagem


"Pra vocês eu deixo o sono,
o sonho não,
Este eu mesmo carrego"

Leminski

19 junho, 2010

Alvorada

Na alvorada do caminho, surge um novo dia. Daqui antevejo tuas cores pálidas, o outono a assoviar suas novidades no parapeito da janela. O que o amor tem de bonito é isso, está sempre à beira do que é efêmero. Aceita correr livre sabendo que o destino do rio, independe das voltas que dá. O céu confidencia ás estrelas que toda tristeza se finda no encontro com as ondas do mar
Ana Fenner

10 junho, 2010

" Como uma bandeira ao vento"

 
Senhoras e senhores a copa de 2010 se iniciou hoje, com um show de abertura no mínimo repleto de significados. Uma copa realizada em plena África quer dizer muito mais do que pernas e bola, quer falar de educação, quer falar de igualdade, quer estampar o mundo inteiro com suas cores vibrantes e natureza exótica. Um país que declara seu passado, um homem que se veste de uma nação e muda o rumo de uma história. Só pela biografia já vale a pena ser assistida, imagina só quando a meta se torna educação, logo nós acostumados com jogadores de futebol que em sua maioria titubeiam no uso de verbos e pecam na ora de cantar o hino do país que literalmente vestem a camisa. Imagina só uma copa em que o slogan é “ 1 goal for education” , me convenceu de cara. E para melhorar as coisas eu amei a música oficial. Não bastando isso confesso, sou apaixonada pelo que os esportes provocam nas pessoas, adoro essa sensação de objetivo comum, da minha voz ecoar junto com outras mil em um estádio (ou em um bar qualquer), não tanto pelo esporte se é que me entendem, mas pelo espetáculo que ele promove. Se nada disso lhe convenceu (e não é esse o objetivo) tudo bem, basta que você também encontre motivos para comemorar. Podem ser motivos “banais” como brincadeira de criança ou “fundamentais” como um novo emprego, não importa, basta que você seja livre “como uma bandeira ao vento”. 
Ana Fenner

09 junho, 2010

Doce ou travessura?

Escandalosamente toca em algum lugar e eu gosto de sua voz aguda, da sua gravidade improvisada, da vida entorpecida. Um sabor agridoce de verdades insuportáveis, de uma leveza ruidosa e riso solto. Suave como as brisas do outono, tempestiva como as chuvas de verão. Um beijo ardente bem no meio dos teus devaneios, trazer você bem junto a mim. Sorver o calor do teu hálito de menta, desfazer tuas metas, desafiar seus interesses.
Se me atiro, se enlouqueço, se te viro pelo avesso, se te enfrento de cara lavada é que não sei ser outra. Se canto alto, se desafino, se te aborreço, se te ignoro, se me desfaço de você, se te convido, se te levo comigo é por te querer de novo.
Ana Fenner

08 junho, 2010

Coragem, um cão covarde

"Resta esse constante esforço
para caminhar dentro do labirinto

Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo,
e esse medo Infantil de ter pequenas coragens."

Vinicius de Moraes

11 maio, 2010

Regresso


Deixo a mala pronta, me arrumo com esmero, troco a envergadura que serviu de escudo e confiro as fechaduras. Descuido da solidão, negligencio as cicatrizes, disfarço o caminho que me trouxe até aqui. Abandono os novos hábitos, ligo para os velhos amigos, pesco da memória a moça de antes, tiro poeira das paixões. Na rua dou com o mar e me despeço também, não sinta saudades que meu regresso é preciso. Volto o olhar para o que me motiva, dou de encontro com os braços abertos, tem gente me esperando no portão. É pra lá que eu vou, onde as ruas são velhas conhecidas e o amor mais seguro. Mas não faça alarde da minha partida, nem sofra com minha ausência, volto em breve com a mesma perseverança de quem recomeça todos os dias uma vez mais.
Ana Fenner

08 maio, 2010

Contramão

Desafino
Minha alma não reconhece as notas, toca por instinto. Meu corpo desequilibra em meio à dança, juram por ai que é molejo. Eu já não canto as avessas nem transbordo em uma esquina qualquer.
Meu ritmo se desnudou entre uma melodia e outra, fiquei entre as linhas da sua imaginação. O salão pede bis, exige um novo passo, me recuso, desacelero...
só reconheço o descompasso.
O meu samba não é de raiz, meu rock não é pop, nossa canção é minha mais pura invenção.
No compasso do cordel minha essência é dançante, sigo a cadência no passo do teu gingado. 
Ana Fenner