11 maio, 2010

Regresso


Deixo a mala pronta, me arrumo com esmero, troco a envergadura que serviu de escudo e confiro as fechaduras. Descuido da solidão, negligencio as cicatrizes, disfarço o caminho que me trouxe até aqui. Abandono os novos hábitos, ligo para os velhos amigos, pesco da memória a moça de antes, tiro poeira das paixões. Na rua dou com o mar e me despeço também, não sinta saudades que meu regresso é preciso. Volto o olhar para o que me motiva, dou de encontro com os braços abertos, tem gente me esperando no portão. É pra lá que eu vou, onde as ruas são velhas conhecidas e o amor mais seguro. Mas não faça alarde da minha partida, nem sofra com minha ausência, volto em breve com a mesma perseverança de quem recomeça todos os dias uma vez mais.
Ana Fenner

08 maio, 2010

Contramão

Desafino
Minha alma não reconhece as notas, toca por instinto. Meu corpo desequilibra em meio à dança, juram por ai que é molejo. Eu já não canto as avessas nem transbordo em uma esquina qualquer.
Meu ritmo se desnudou entre uma melodia e outra, fiquei entre as linhas da sua imaginação. O salão pede bis, exige um novo passo, me recuso, desacelero...
só reconheço o descompasso.
O meu samba não é de raiz, meu rock não é pop, nossa canção é minha mais pura invenção.
No compasso do cordel minha essência é dançante, sigo a cadência no passo do teu gingado. 
Ana Fenner

28 abril, 2010

Eu acredito

Eu quero me dar o direito de acreditar em tudo que é pássivel de ser imaginado.
Ana Fenner

"Me deixa brincar de ser Feliz"



Corro pelo asfalto, com vista para o mar. Eu mudo a rota, reinvento o traço. Eu conheço aquela esquina reconheço aquele olhar. O vento sacode a poeira, o vento bagunça os cabelos meus. Eu não me faço de rogada, vou de encontro ao mar. O que eu não gosto é do meio termo, sou dos extremos, a minha dor não me cabe, a alegria me extravasa, o que eu não sou é meio do caminho. Quiçá descobrir a minha natureza, desvendar os meus segredos. Pensando bem, esquece isso, deixa pra lá. Puxa uma cadeira, vem ver o sol, vamos brincar de ser feliz.
Ana Fenner

Bons Presságios


A esperança me chama e eu salto a bordo como se fosse a primeira viagem. Se não conheço os mapas, escolho o imprevisto: qualquer sinal é um bom presságio. Seja como for, eu vou, pois quase sempre acredito: ando de olhos fechados mas não desisto. A dor eventual é o preço da vida: passagem, seguro e pedágio
Lya Luft

27 abril, 2010

Desejo


Convida-me para uma ultima dança?
Ana Fenner

24 abril, 2010

Assim sou eu



Sou uma céptica que crê em tudo
uma desiludida cheia de ilusões
uma revoltada que aceita, sorridente
todo o mal da vida
uma indiferente a transbordar de ternura.
Grave e metódica até à mania
atenta a todas as subtilezas de um raciocínio claro e lúcido
não deixo, no entanto,
de ser um D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento
quimérica e fantástica
sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida
num dar de mim própria que não acaba
que não desfalece, que não cansa.

Florbela Espanca

21 abril, 2010

Caminhos do perdão


Há um descampado em meio ao jardim e nele não há flores, não há beleza, não gosto de passear por ali principalmente porque aquele trecho me remete uma história que eu não quero lembrar e contraditoriamente não consigo me esquecer. Aquele pedaço de terra me lembra inclusive da minha fragilidade humana, dos sentimentos menos nobres que tenho como o orgulho, a raiva e uma imensa dificuldade em perdoar quem me feriu sobremaneira. Aquele pedaço do jardim provoca um vazio imenso no peito e vez ou outra a dor aperta. Espero que você entenda a sinceridade com que escrevo estas palavras e compreenda acima de tudo que não é apenas uma dificuldade em perdoá-lo, mas de perdoar a mim mesmo. É difícil imaginar que eu errei tantas vezes também e que faltei com a verdade em não assumir meus erros. A minha felicidade esbarrou na sua antes mesmo que eu tomasse conhecimento de quem você era e do que representaria para mim. O meu afeto e acolhida foi pouco diante da sua perda, talvez você nunca me perdoe pelo que sem querer minha felicidade te causou e eu hoje consigo imaginar o imenso vazio que te sobrou em anos que foram para mim os melhores. Você tirou de mim não somente o material, você criou uma distancia imensa entre tudo o que me era caro, você me mostrou um lado feio da vida, você me mostrou o mundo em que vivia e que eu não estava preparada para enfrentar. A minha culpa consiste em não ter tentado mais, em não ter insistido e de raiva e magoa ter fugido.
Ainda não consigo perdoar nem a você nem a mim por inteiro, mas hoje quero que saiba que plantei nesse pequeno descampado uma semente chamada perdão e à medida que ela desabrocha, cresce em mim este sentimento sublime e quem sabe um dia você também possa me perdoar. E o meu jardim volte a ter ali flores e borboletas.
Ana Fenner
“talvez você tenha que declarar seu perdão uma centena de vezes no primeiro dia e no segundo dia, mas a cada dia serão menos vezes, até que um dia você perceberá que perdoou completamente.”

Fantasias de Amor




Eu quero mais



Ser mulher não me basta. Quero mais que um dia para celebrar aquilo que sou com unhas, carnes e dentes. Quero não ser lembrada apenas por minha “fragilidade”, mas quem sabe pela minha força que não é bruta, quem sabe por minha ternura que persiste.
Ser mulher não me basta, chega de feminismos que não me convencem, chega dessa igualdade meio tola, quero sim ser diferente.
Quero que você descubra que posso pagar a minha conta, trocar um pneu e consertar o cano da pia, mas quero que uma vez ou outra você faça isso por mim, apenas por afeto. Quero sim flores, porque gosto de flores e isso não me torna inferior. Eu me recuso a ver você bancando o machista, sendo o ditador de um relacionamento por vezes unilateral, quero teu lado nobre, quero um amor (re) inventado.
Um dia para ter seus elogios me parece pouco, quero ter o seu melhor quando eu te mostrar o meu pior, quero teu afago em dias de megera. Ser mulher não me basta, não é por isso que quero ser lembrada.
Quero ser lembrada por minha sutileza, por minha doçura, por minhas qualidades, não vá levar tão a sério minhas falhas.
Ser mulher não me basta, quero ser essência e muito mais.
Ana Fenner